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Não existe música boa

Gabriel Sorrentino
por Gabriel Sorrentinoatualizado
Não existe música boa

Particularmente, pensava que achar uma música ruim por não ser erudita, com palavreado rebuscado, composição com métricas perfeitas e letra que cause reflexão sócio-político-econômico-cultural tivesse ficado no passado. Errei. Ainda existe - e muito. Basta dar uma passeada por comentários no Facebook ou em "replies", no Twitter.

Contudo, pensemos: o que faz uma música ser boa? Para além de qualquer técnica, há quem diga que o esforço do artista conta muito para a qualidade do som. Então as mixagens e produção pós-gravação, que são, inclusive, bastante trabalhosas, não são levadas em consideração em um pop da Ludmilla ou no funk do Kondzilla? Em "Gota d'Água", Chico Buarque levou apenas voz e violão. Onde está o "grande esforço"? Ah, mas a música é boa. "Não são letras chulas. Têm complexidade", eles dizem. Já que falamos de Chico, por que não citar "Geni e o Zepelim"? No ápice da descompostura, a letra, explicitamente, propõe que "joguem pedra na Geni", além de afirmar que "ela é boa pra apanhar e cuspir". Vale a pena lembrar, também, que a vida sexual da "maldita Geni" é levada em conta, afinal, "ela dá pra qualquer um".

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Já que letras estão sendo levadas em consideração, um questionamento: por que a música de Erasmo Carlos é aceita enquanto a da Jaula das Gostosudas é rechaçada? Não aceito a "vulgaridade das meninas" como resposta. Além de machista, é totalmente inconsistente. Ora, por que? Preste atenção em "Kamasutra", do tremendão. Na canção, o intérprete passa por diversas posições sexuais para questionar a pessoa com quem se relaciona qual vai ser a da vez, além de relembrar outros momentos picantes e ousados que já teve na cama. Ele sequer mede palavras para isso. “Ficamos de mãos dadas no improvável caranguejo/Mas foi com a chave de ouro que o namoro começou/No 69 a gente deu nosso primeiro beijo/ O que faremos hoje com nosso desejo?/Onde colocar o amor?”, canta.

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A meu ver, quanto mais distante da roda de privilégios, mais perseguida será a música - e o músico também. O funk, como legítimo gênero da periferia, será o primeiro alvo de conservadores, levando em consideração que a luta de classes acaba falando mais alto. O negro, a mulher, o LGBT+ e qualquer outra minoria social serão alvos da intolerância musical com muito mais facilidade. Não à toa que o homem branco, hétero e de classe média tem sua música facilmente aceita, não é mesmo? Vide Erasmo Carlos, Chico Buarque e, até mesmo, Michel Teló, com as famosas "Ai, Se Eu Te Pego" e "Fugidinha".

Fica fácil concluir que não existe música boa. Existem repertórios intelectuais que variam de pessoa para pessoa - e por isso há uma pluralidade cultural para agradar a todos os gostos. Música serve para agradar, entreter, questionar, resistir, comunicar, distrair. Ao mesmo tempo, música serve para nada. A primeira arte é usada e consumida da maneira que cada um entende e deseja.

Portanto, concentre-se em aproveitar sua canção preferida. Se o amigo do lado quiser rebolar com funk ou chorar com sofrência de um sertanejo, apenas aumente o som. Ou coloque seus fones de ouvido. Seu julgamento em relação à música promove juízos de valor? Exclui alguém pela liberdade sexual na letra ou pelas batidas graves no arranjo acelerado? Amig@, eu te informo: você é conservador.

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